Especialista explica como a perícia identificou o corpo da corretora gaúcha esquartejada em Florianópolis
A Polícia Civil de Santa Catarina confirmou que os restos mortais encontrados em Major Gercino (SC) pertencem à corretora gaúcha Luciani Aparecida Estivalet Freitas, 47 anos, desaparecida desde o início de março em Florianópolis. Especialista esclarece como a perícia identifica uma vítima esquartejada, diferencia lesões vitais de cortes pós-morte e o papel decisivo dos laudos na consolidação da investigação.
Três pessoas que moravam no mesmo conjunto residencial da vítima, no bairro Santinho, foram presas sob suspeita de latrocínio e ocultação de cadáver. A investigação foi desencadeada após a família registrar o sumiço ao notar mensagens com erros incomuns enviadas do celular de Luciani e a realização de compras online com seus dados. A partir do rastreamento dessas transações, os investigadores chegaram aos suspeitos, entre eles o vizinho de porta, a companheira dele e a administradora do residencial. Os restos mortais foram localizados por moradores em um córrego na zona rural de Major Gercino, a mais de 100 km da Capital, e a identificação foi confirmada pela polícia. Os trabalhos seguem para consolidar a dinâmica e individualizar as condutas.
Para a médica Caroline Daitx, especialista em medicina legal e perícia médica, a elucidação depende de três respostas: quem é a vítima, causa da morte e como o crime ocorreu. Ela explica que “em casos com desmembramento, a identificação pode exigir DNA, além de odontologia legal e antropologia forense, quando disponíveis, para compor o perfil biológico”.
Ela diz que a distinção entre lesões vitais e post-mortem é crucial. “Hemorragia e inflamação nos tecidos indicam agressões em vida, enquanto o esquartejamento pode ter ocorrido após a morte. A estimativa do tempo de morte combina cronotanatognose (rigidez, livores, temperatura, putrefação) e, quando aplicável, entomologia forense”, informa a perita.
Em relação à ferramenta empregada, a especialista afirma que “cortes limpos e regulares em ossos sugere instrumentos de corte mais afiados. Já cortes irregulares com fraturas associadas apontam instrumentos cortocontundentes, como cutelos ou machados”. Ela acrescenta que “marcas de hesitação e a precisão na desarticulação podem indicar o grau de experiência do autor e até conhecimento anatômico.”
Sobre a dinâmica da ação, Daitx observa que a ausência de grande volume de sangue no ponto de achado costuma indicar que o desmembramento ocorreu em local diverso. “A logística de transporte e descarte, por sua vez, pode sugerir mais de um envolvido”, enfatiza.
Segundo reportagens locais, a apuração também aponta o uso do carro da vítima no descarte e o fracionamento do corpo antes da desova, elementos ainda sob exame pericial. A polícia mantém a linha de latrocínio e segue reunindo evidências materiais e laudos periciais para fechar a reconstrução dos fatos.
Fonte: Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica. CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.