O silêncio protege o agressor. A coragem protege a criança.
Escrevo este artigo com o coração apertado, mas com a consciência de que o silêncio nunca foi solução. O caso recente registrado em Antônio Prado, na Serra Gaúcha, envolvendo a prisão de um pai suspeito de abusar da própria filha, não é apenas mais uma notícia policial. É um alerta doloroso e necessário. Como mãe e como cidadã, sinto que não podemos tratar esse tema como algo distante. A violência sexual contra crianças e adolescentes acontece, muitas vezes, onde elas deveriam estar mais seguras: dentro de casa. Na cidade e na área rural.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a maioria dos casos de violência sexual contra crianças ocorre no ambiente familiar e é praticada por alguém conhecido da vítima. Isso desmonta a falsa ideia de que o perigo está apenas nas ruas. O perigo pode estar no círculo de confiança.
Precisamos falar sobre limites
Como mãe, aprendi — e reforço todos os dias — que criança e adolescente, seja menino ou menina, precisam saber que têm direito ao próprio corpo.
Não é exagero ensinar que:
- Não precisam se sentar no colo de ninguém se não quiserem — seja tio, avô, amigo da família, vizinho ou até mesmo o próprio pai.
- Não existem “brincadeiras inocentes” que envolvam toque íntimo ou exposição do corpo.
- Não se guarda segredo sobre situações que causam desconforto.
A inocência de uma criança jamais pode ser usada como desculpa para que alguém ultrapasse limites. Nossos filhos não são objetos de desejo. Não são brinquedos. Não pertencem a ninguém. Eles merecem respeito.
As marcas que ficam
Quem nunca viveu algo assim pode não dimensionar as consequências. Mas especialistas alertam que os danos emocionais podem acompanhar a vítima por toda a vida: ansiedade, depressão, medo, dificuldades afetivas, culpa injusta.
E muitas vezes a criança sofre calada, por medo, vergonha ou manipulação. Mamães, ouçam sempre o que eles querem dizer.
Por isso, precisamos estar atentas aos sinais. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar, medo repentino de determinada pessoa — tudo isso precisa ser observado com sensibilidade e seriedade.
Coragem que salva
Quero aqui fazer um reconhecimento necessário: quando uma mãe rompe o silêncio para defender a filha, ela está escolhendo proteger o que é mais precioso.
A criança será sempre filha.
O marido abusador pode ser ‘descartado’ — e deve ser responsabilizado.
Proteger uma criança não destrói uma família. O que destrói é o abuso. O que destrói é o silêncio.
Um compromisso que precisa ser coletivo
Não escrevo estas palavras para espalhar medo, mas para fortalecer consciência. Precisamos conversar mais com nossos filhos, ensinar limites, acreditar quando eles falam e nunca minimizar desconfortos. Se houver suspeita, denuncie. O Disque 100 funciona 24 horas, de forma gratuita e anônima. Ou procure o Conselho Tutelar da sua cidade.
Finalizo este artigo com uma convicção que carrego comigo: O silêncio protege o agressor. A coragem protege a criança.
Que nunca nos falte coragem.