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O Oriente Médio, por exemplo, absorve 30% das exportações brasileiras de frango, produto no qual o Brasil é líder global em exportações e, portanto, está mais exposto. Apesar do esforço para tentar manter o fluxo de 200 contêineres/dia para a região afetada, houve queda de 18,5% nos volumes embarcados em março na comparação com fevereiro, de acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Culturas como milho e açúcar também são bastante sensíveis aos conflitos geopolíticos. Insumo para rações animais, o milho requer fluxos contínuos de transporte e interrupções logísticas no golfo, além de preço elevado do frete marítimo, podem causar excesso de oferta no segundo semestre aqui. Já o açúcar também tem forte exposição ao Oriente Médio, pois o Brasil detém 51,5% das exportações globais do produto, sendo a região tensionada responsável por 17,1% dos embarques para o exterior.
Fertilizantes importados
Outro ponto crucial para o agro são os fertilizantes, pois o Brasil importa cerca de 80% do que utiliza. O Oriente Médio reponde por cerca de 40% do comércio marítimo global de ureia – cujos preços chegaram a subir cerca de 70% -- e contribui de forma relevante para a oferta de amônia e fertilizantes fosfatados. Segundo empresa de fertilizantes Yara Brasil, 34% da produção mundial de ureia é proveniente da região. A alta de preços pressiona os custos de produção de culturas como milho, soja e cana-de-açúcar.
Além disso, há o impacto no preço do petróleo, uma vez que o Oriente Médio concentra grandes produtores globais. Com a eclosão do conflito e o fechamento do estreito de Ormuz, a cotação do barril tipo Brent saiu de um patamar em torno de US$ 70 para algo ao redor de US$ 100. Para o agro brasileiro, isso se traduz em aumento do custo do diesel, essencial para o transporte de insumos e escoamento da produção e que subiu mais de 20%, além de impactar o preço de fretes marítimos. Como consequência, toda a cadeia logística fica mais cara, reduzindo a competitividade das exportações.
“Mesmo que as hostilidades cessem imediatamente, o preço do petróleo não voltaria ao nível anterior rapidamente”, pondera José Roberto Colnaghi. Isso porque boa parte da infraestrutura de produção da região foi destruída ou, pelo menos, severamente afetada. A recuperação de refinarias, terminais e oleodutos requer investimentos e tempo – especialistas do setor estimam que a normalização da cadeia pode levar um ano.
Inflação mais alta
Por fim, o resultado é um aumento da inflação no mundo e menor crescimento. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estimou que o PIB global avançará menos este ano (2,9%) que em 2025 (3,3%). Para 2027, a OCDE cortou a previsão de crescimento mundial de 3,1% para 3%.
No Brasil, as consequências econômicas também já estão sendo vistas. O Banco Central foi bastante cauteloso no corte de juros na reunião de março, reduzindo apenas 0,25 ponto percentual a taxa básica. A inflação também subiu. Em março, os preços aceleraram 0,88% (a previsão era 0,77%) e no acumulado em doze meses o índice subiu para 4,14%, acima dos 3,81% registrados nos doze meses anteriores.
“É um cenário preocupante porque, com a inflação pressionando, os juros devem cair muito lentamente no Brasil. E o patamar altíssimo das taxas atuais inibe os investimentos produtivos, encarece o crédito e impacta negativamente as famílias, que já estão endividadas”, diz José Roberto Colnaghi. “Temos uma travessia delicada pela frente neste mar de incertezas,” conclui Colnaghi.
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